Bolsonaro está pedindo para ser preso e provocar caos para não ter eleições

Menos de 12 horas depois de ver enterrada pela Câmara a palhaçada do “voto impresso”, Bolsonaro voltou ao “cercadinho” do Alvorada para se proclamar vitorioso e lançar novo desafio ao Tribunal Superior Eleitoral.

Aos devotos da seita bolsonarista, repetiu que a “eleição de 2022 não será confiável” e deixou claro que não cumprirá o acordo feito com o presidente da Câmara, a quem prometeu respeitar o resultado da votação no plenário.

Bolsonaro precisava de 308 votos para aprovar o principal projeto do seu governo, mas apenas 229 foram favoráveis à proposta. Em seu linguajar arrevesado, disse que “hoje em dia, sinalizamos para uma eleição, não que está dividida, mas que não vai se confiar nos resultados da apuração”.

Nas suas contas, muitos dos 218 votos contrários foram dados por deputados que se sentiram chantageados pela pressão da Justiça Eleitoral. “Metade do parlamento que votou sim ontem quer eleições limpas; outra metade, não é que não queira, ficou preocupada em ser retaliada”.

Como já ameaçou várias vezes que “sem voto impresso e auditável” não haverá eleições”, e o presidente do Senado já declarou que esse assunto está encerrado, a estratégia do presidente daqui para a frente parece clara: provocar o Judiciário até ser decretada sua prisão por ameaça à ordem pública e assim provocar o caos social que vem anunciando há tempos.

É com isso que ele sonha desde que tomou posse para poder governar com plenos poderes.

Com as milícias bolsonaristas soltas nas ruas e nas redes virtuais, e boa parte da população desempregada e passando fome, Bolsonaro parte para o quanto pior, melhor. Desta forma, ele pretende provocar a intervenção das Forças Armadas para garantir a lei e a ordem.

O objetivo é um só: cancelar ou adiar as eleições presidenciais de 2022, que ele já está dando por perdidas, embora diga que não acredita em pesquisas. Seus seguidores mais fiéis continuam acreditando na “intervenção militar com Bolsonaro”. Há controvérsias nos quarteis sobre isso.

Apesar do mega vexame daquele desfile de tanques e canhões na terça-feira, o plano do capitão é estreitar cada vez mais nos próximos dias suas relações com os comandos militares para dar uma demonstração de força do governo.

No dia 16, ele irá a Formosa (Goiás) para assistir ao treinamento da Marinha; no dia 25, tem o Dia do Soldado e, entre um evento e outro, ele pretende promover uma motociata em frente à Academia Militar de Agulhas Negras (Aman), onde o capitão e seus generais estudaram.

Até agora, ninguém, nem ele, sabe o que pensam dessa movimentação os oficiais da ativa das Forças Armadas, que permanecem em obsequioso silêncio, o que é sempre um perigo.

Anunciar um golpe com tanta antecedência, como o presidente quer e procura, não é algo muito comum entre os que pretendem virar a mesa por não confiar na urna eletrônica.

As seguidas promessas de Bolsonaro de que não vai sair “das quatro linhas da Constituição” não são garantia de nada, até porque não dá para acreditar em nada do que o presidente fala, como bem sabem Arthur Lira e a tropa de choque do Centrão, que também não primam pela fidelidade.

Tudo somado, vamos entrar agora num breve período de entressafra institucional, depois da temperatura máxima da semana passada, quando o STF e o TSE anunciaram a abertura de duas investigações sobre os seguidos atentados do capitão contra a democracia e a saúde pública no enfrentamento da pandemia. Bolsonaro não vai desistir da sua ideia fixa de melar o jogo.

Na CPI da Covid, só faltava o presidente ser denunciado por charlatanismo. Agora não falta mais.

Vida que segue.